Geral

Bete luta pela adoção tardia



Bete luta pela adoção tardia
Ontem, 25 de maio, foi o Dia Nacional da Adoção Legal. Entre os muitos voluntários que existem em Fernandópolis na luta em favor das crianças órfãs e abandonadas, está a professora Elisabete Maria Moro Viana, que há nove anos preside a Associação Assistencial Nosso Lar de Fernandópolis – a Casa Abrigo, que também chamam de Orfanato. Na divulgação da efeméride, Bete e seus companheiros se preocuparam em fazer um alerta: é preciso atrair interessados em promover a adoção tardia – a que agrega a alguma família crianças que já passaram dos quatro ou cinco anos, e que normalmente são preteridas em favor de outras mais jovens. Nesta entrevista, Bete explica o que representa a adoção tardia em termos sociais e psicológicos – “um exercício do altruísmo”, como bem classificaram as psicólogas Margareth de Carvalho e Priscila Valéria da Silva, em recente texto sobre a adoção.

CIDADÃO: Ontem, foi comemorado o Dia da Adoção. Fernandópolis, por proposição da vereadora Maiza Rio, está engajada na divulgação dessa campanha. E o tema principal do momento é a chamada “adoção tardia”. Em que consiste isso?
BETE: Adoção tardia é a que se dá com crianças acima de dois anos de idade, já que as pessoas, normalmente, procuram recém-nascidos para adotar. Principalmente no caso da mulher, que quer se sentir mãe, cuidar do bebezinho, participar do primeiro passo, da primeira fala. Isso traz muita resistência quanto à adoção de crianças acima daquela idade, porque a criança já tem sua personalidade, as pessoas acreditam que seja mais difícil dominar essa criança, que já traz certos hábitos enraizados. Daí a resistência. Só que essas crianças são exatamente as que mais precisam de lar, porque enquanto é pequena e está no abrigo, ela não sente tanto a falta de amor e carinho quanto essas crianças mais velhas.

CIDADÃO: A criança pequena não tem a percepção do núcleo familiar?
BETE: Não, não tem. Porém, as pessoas resistem, dizendo: “Ah, essa criança vai me dar muito trabalho”. Claro que dará, os filhos da gente também dão trabalho, criança sempre dá trabalho. Mas, se você tiver amor e o coração aberto para receber essa criança, o seu filho será bem educado. A criança, além de orientação, precisa se sentir amada. Com filho adotivo, a gente tem que se desdobrar, porque certamente será uma criança que sentiu muita falta de amor num período de sua vida. Para adotar uma criança em idade mais avançada, a pessoa precisa mesmo se desdobrar e ter muita dedicação.

CIDADÃO: Existe algum tipo de orientação que possa ser dada aos pais que adotam crianças com mais idade?
BETE: Nós orientamos a todas as pessoas que façam a adoção tardia que façam terapia – tanto a criança quanto os pais. Isso porque a adaptação no começo é fácil, mas no dia-a-dia começam a aparecer as dificuldades. Muitas pessoas acabam desistindo da adoção depois desse primeiro momento. É preciso ter terapia e acompanhamento. Até os outros filhos do casal, se existirem, devem ser preparadas para receber essa criança. Não conheço nenhuma instituição em Fernandópolis que faça trabalho nesse sentido, a não ser as técnicas do Fórum, que durante um certo período fazem acompanhamento com as famílias. Enfim, sem a terapia, é difícil estabelecer uma convivência harmoniosa.

CIDADÃO: Aparentemente, as pessoas têm a tendência de procurar um bebê de olho azul, loirinho, recém-nascido, de preferência parecido com o pai ou com a mãe. Muitos casais, ao adotarem, mentem para a criança, escondendo o fato de que ele é filho adotivo. O que você acha desse comportamento?
BETE: Acho super errado. Desde pequena, a criança tem que saber que não nasceu da barriga da mãe, mas que é filha do coração. Nunca se deve, também, menosprezar sua origem, dizendo: “olha, tua mãe não te quis, teu pai não te quis”. Afinal, não se sabe o que os pais biológicos passaram para chegar a ponto de abandonar a criança. Então, os pais têm que contar a verdade. Se eventualmente a criança quiser conhecer os pais biológicos, e isso for possível, acho que é seu direito. E a mentira pode ser cruel. Em cidades pequenas como a nossa, em que todo mundo sabe quem é filho adotivo, mais dia, menos dia, ela saberá a verdade. Há uns vinte dias, aconteceu um caso assim. O casal havia adotado uma criança, estava aguardando que ela crescesse um pouco mais para lhe contar, quando um vizinho acabou lhe revelando a verdade. A criança levou um choque. Então, é obrigação dos pais jogar aberto. Mesmo com os filhos biológicos, para que aprendam a conviver com a verdade, como cidadãos dignos.

CIDADÃO: O Orfanato tem hoje 32 crianças abrigadas. Dessas, quantas estariam na faixa da chamada adoção tardia?
BETE: Cerca de 80%. Temos crianças que estão aqui há seis, oito anos. A adoção é difícil porque, de acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) o abrigamento da criança é uma medida excepcional, quando não pode mais ficar com a família por qualquer motivo. Então, tem que se tentar reabilitar os pais e voltar a criança ao convívio familiar. A adoção é o último caso – quando não há mais condições disso. Só que, em relação a essas crianças que estão aqui há anos, já foi feito de tudo e suas famílias não conseguiram se regenerar. Aí, elas já estão com 10, 12, 13 anos de idade, e não vão para a adoção. Então, deixamos essas crianças morando conosco, estudando, fazendo faculdade, e depois eles vão cuidar de suas vidas.

CIDADÃO: Se eu fosse um potencial adotante e estivesse relutante em adotar uma criança mais velha, você teria condições de argumentar dando exemplos concretos de casos bem resolvidos?
BETE: Vou contar a história de um menino que está conosco há vários anos. Quando ele tinha oito anos, apareceu um casal que pediu a guarda provisória. Ele passou a viver com essa família. O começo foi maravilhoso, mas quando começaram as primeiras dificuldades, o casal, que não havia procurado a ajuda de psicólogos nem nada, depois de um ano, devolveu a criança, como se fosse uma encomenda, uma roupa que não serviu. Foi a coisa mais terrível. A criança ficou revoltada, começamos um trabalho psicológico com ela. Quando ele estava quase com onze anos, apareceu outro casal, que o levou, conviveu com ele, pediu primeiro a provisória, depois a guarda definitiva, e graças a Deus ele está super bem. Por que? Ora, porque esse casal escolheu um método de estabelecer obrigações e deveres, mostrando que a vida tem limitações e compromissos. Não o trataram a pão-de-ló, como havia acontecido na primeira tentativa de adoção. Esse casal soube trabalhar com essa criança no período de convivência. Por isso, deu certo.

CIDADÃO: Há quase uma década à frente desta instituição, como você se sente?
BETE: Eu me sinto realizada. Acho que as coisas acontecem nas nossas vidas por uma razão de ser. Eu sou formada em Matemática, fui bancária, nunca trabalhei com crianças. Por acaso, um dia apareci para ajudar nesta casa, e estou aqui até hoje. Acho que isso tinha que acontecer na minha vida, e eu me sinto bem, amo estas crianças, luto por elas, assim como todas as pessoas da diretoria, fazemos tudo para que estas crianças tenham uma vida feliz e um futuro.