Crônica

Crônica Caixinha de correio por Eliana Jacob



Crônica Caixinha de correio por Eliana Jacob

Estava no centro da cidade, quando meu celular tocou; era alguém do Mercado Livre dizendo que precisava fazer uma entrega. Corri para casa e... surpresa! Havia chegado meu presente do dia dos namorados. Fomos visitar meu irmão e minha cunhada  no último final de semana e, no condomínio onde eles  moram, vi em várias casas – inclusive na deles – uma caixinha de correio igual às que vejo em alguns filmes estrangeiros, daquelas que têm uma bandeirola que o carteiro levanta quando tem correspondência e a gente abaixa, depois que as esvazia.
Fiquei encantada e pedi para meu marido comprar uma; ele procurou na internet e me disse que não tinha conseguido fazer a compra. Fiquei desapontada e ainda perguntei mais duas vezes. Ele sempre dizendo que não havia concretizado a compra.
Com o tempo, nossas prioridades mudam.  Muitas mulheres no meu lugar ficariam decepcionadas com tal presente; entretanto, para mim tem um significado especial. Ela retoma a história de nosso namoro, que foi longo e muito romântico.
Aos 17 anos, entrei na faculdade de Letras, em São José do Rio Preto. Terminado o primeiro semestre, vim de férias para Fernandópolis e, depois de alguns encontros, comecei a namorar o Tadeu, hoje meu marido. Ele morava em Estrela d’Oeste e fazia Engenharia em Araraquara. Então, por longos 6 anos, escrevíamos uma carta todos os  dias  um para outro, salvando apenas o fim de semana,  quando vínhamos para casa. No domingo à noite, sem nenhuma pressa, voltávamos juntos de trem.
Na pensão em que eu morava, todo mundo admirava nosso compromisso de fazer um verdadeiro diário para o outro. Escrevíamos letras  de música, poemas que eu estudava na faculdade, e frases  apaixonadas, como “Te amo mais do que Romeu amou a Julieta”. Houve uma vez uma coincidência incrível: escrevemos uma carta no mesmo dia com um trecho da música da Amelinha, que fazia sucesso na época:  “Foi Deus que fez a gente / somente para amar”. Eu sempre colocava uma florzinha amarela do jardim da faculdade no meio da carta ou pingava uma gotinha de perfume na folha.  Do lado de lá, o carteiro já conhecia o desenho que eu fazia sobre o  nome do Tadeu e dizia: “Chegou carta da borboletinha”. Perto do Natal, eu já escrevia no envelope: “Feliz Natal, carteiro amigo!”, tamanha intimidade eu imaginava ter com aquele mensageiro.
Ganhar uma caixinha de correio me fez voltar no tempo e reviver o momento quando tudo o que temos hoje era apenas sonho. E ao refazer esse caminho,  sinto a alegria de saber que toda nossa história valeu a pena.