Artigos

Crônica: Quase 50 tons de cinza – Por Eliana Jacob Almeida



Crônica: Quase 50 tons de cinza – Por Eliana Jacob Almeida

Quando éramos crianças, uma brincadeira que adorávamos fazer enquanto viajávamos era apostar quantos carros passavam da mesma cor. Como éramos seis filhos, tinha cor para todos e era frequente a disputa entre as seis cores escolhidas. Hoje, se observarmos um estacionamento de um mercado ou fila no semáforo, vamos encontrar somente três: preta, branca e cinza – esta última em vários tons.

A pergunta inevitável é: por que a indústria automobilística lança tantos modelos de carro todos os dias, se quase todos são da mesma cor? Consultei as cores de carro no google, e tive como resposta uma tabela com 126; dentre elas, 48 são nuances de cinza. Sabiam disso?... Quase 50 tons de cinza! O problema é que a diferença de preço entre os modelos varia muito; às vezes, um carro custa o dobro do outro, mas por serem da mesma cor parecem iguais.

A impressão que tenho é de que, como só há tomate para salada na geladeira, cortamos um em rodelas; outro, em cubinhos; outro ainda, de comprido; no fim das contas,  temos uma salada bem variada de... tomate!

Também não entendo os nomes de carro; às vezes, lançam um modelo igualzinho a outro já existente, mas vem com outro nome. Outras vezes, lançam um completamente diferente do já que já existe, mas vem com o mesmo nome. Dá para entender?

Beleza também conta: há modelos mais antigos ou mais baratos, muito mais bonitos do que os lançados por último  ou os mais caros, mas como são novos...

A verdade é que estamos numa sociedade capitalista, que estimula o consumo desenfreado; o que vale é o “ter”  em detrimento do “ser”, e quem tem  o modelo mais novo e mais caro é que se destaca.

Isso não é um problema, pois as pessoas que compram carros são adultas e são livres para fazer suas escolhas. Só acho que o trânsito anda meio triste, parece que está sempre nublado.

Tenho saudades do Dodge Darth  amarelo ovo que meu pai tinha, quando eu era adolescente. Meu namorado, hoje meu marido, vinha de Estrela d’Oeste num Dodge vermelho do pai dele e fazia o maior sucesso.

Hoje podemos viajar só nós três - meu marido, meu neto e eu - e fazer aquela brincadeira  de nossa infância, que as cores que existem dão certinho para os três. A disputa agora é quem escolhe primeiro os quase 50 tons de cinza.