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“É hora de socorrer a classe artística”



“É hora de socorrer a classe artística”

O meio cultural foi um dos segmentos mais impactado pela pandemia do coronavírus. Desde que vírus chegou ao Brasil, teatros foram fechados, espetáculos e eventos culturais e artísticos cancelados e milhares de artistas e profissionais, de uma hora para outra, perderam fonte de renda. 
Em Fernandópolis, não foi diferente. Vejam que a principal festa da cidade, a Expo em maio, foi cancelada, interrompendo uma tradição de 54 anos. Na esteira da pandemia, projetos culturais foram sendo cancelados, casos da Mostra Estudantil de Teatro e o Concurso Literário. O inimaginável no Brasil está acontecendo: nem virada do ano, nem o carnaval resistiram ao coronavírus. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Fernandópolis, Iraci Pinotti, em entrevista à Rádio Difusora e CIDADÃO fala do cadastramento de artistas locais e empresas voltadas para eventos culturais para serem atendidos pela Lei Aldir Blanc, que é o auxílio emergencial da Cultura. Tudo para garantir essa travessia difícil, a espera de que as cortinas possam se abrir novamente para os eventos culturais. “O momento é de socorrer a classe artística”, afirmou.  Enquanto isso, Iraci diz que aproveita essa parada para readequar os espaços culturais da cidade, como o Teatro e a Estação Cidadania. “Quando tudo passar, eles estarão prontos para receber os fernandopolenses”, diz.

Leia a entrevista:

A pandemia afetou intensamente a classe artística. O que está sendo feito para amenizar o problema?
A cultura foi o primeiro segmento a ser impactado pela pandemia. E a retomada será mais demorada. Com isso a classe artística está sofrendo por conta da paralisação de todas as atividades. Diante da situação, a classe artística brasileira se mobilizou para aprovar uma lei que auxiliasse a classe. Essa lei foi batizada de “Lei Aldir Blanc” (que morreu vítima da Covid-19 no dia 4 de maio). Essa lei foi aprovada e depende da regulamentação do presidente para que possa ser colocada em prática. Ela concede auxilio emergencial para os trabalhadores da cultura, nos mesmos moldes do que o governo oferece para os trabalhadores, de R$ 600. Quem se cadastrou no auxilio emergencial e já está recebendo, não entra nesse projeto. A lei permite que aqueles que não receberam nada até agora possam receber esse auxilio. A gente vai poder também dar subsídio mensal para manutenção de espaços artísticos, microempresas, empresas de pequeno porte, cooperativas, organizações culturais, comunitárias. Vamos exemplificar: se a pessoa tiver uma empresa que loca som, ele pode entrar com pedido de subsídio durante três meses, ajudando a manter a empresa. O terceiro eixo da lei, trata dos editais, das chamadas públicas, que a prefeitura está preparando para publicação contemplando atividades como dança, música, teatro, literatura, artes plásticas, todos os segmentos da área cultural serão atendidos. Para receber essa ajuda, é necessário preencher um cadastro no site da prefeitura (Lei Emergência Cultural) para pessoa física e pessoa jurídica. Esse cadastro é o ponto de partida para que possamos preparar o processo de ajuda para a classe artística. 

"As coisas estão fluindo para que nesse momento terrível consiga ajudar os artistas da cidade"

O que falta para esse projeto ser colocado em prática?
Falta a regulamentação do governo federal. Nós já estamos trabalhando com os editais, para que, quando sair a regulamentação, a gente publicar. A partir do dia que o dinheiro cair na conta do Fundo Municipal de Cultura, nós vamos ter 120 dias para soltar o edital para esses grupos se inscreverem. Vai ser corrido, mas estamos bem adiantados. 

Como avalia os efeitos da pandemia na Cultura?
Apesar desse momento de pandemia, nos bastidores, a Secretaria de Cultura e Turismo está ativa e tocando vários projetos. Enquanto Secretaria de Cultura, a gente participa de grupo de gestores culturais do Estado inteiro. Em Fernandópolis a gente tem o Conselho Municipal de Cultura, que está em reformulação e que é responsável por avaliar todas as demandas culturais. Por conta da Lei Aldir Blanc, estamos transformando nosso conselho em Conselho Municipal de Políticas Públicas, trabalhando em cima da regulamentação do sistema nacional de cultura para depois chegarmos ao Plano Municipal de Cultura. É estressante, porém, a gente vê que as coisas estão fluindo para que nesse momento terrível se consiga socorrer os artistas da cidade. Foi um pedido do prefeito André Pessuto que a gente atenda essas demandas, porque pode demorar para reabrir teatro e os espaços culturais. Apesar de estarmos quase iniciando um período eleitoral, essa lei (Aldir Blanc) não vai conflitar em nada porque trata de ações emergenciais destinada ao setor cultural o que permite a gente trabalhar normalmente. 

"Essa quebra do calendário é algo que causa uma estranheza muito grande, dá um aperto no coração"

Calendário de grandes eventos pelo Brasil estão sendo cancelados. No caso de Fernandópolis ocorre o mesmo?
Com certeza. A gente começa esses projetos culturais, como Mostra Estudantil de Teatro e Concurso Literário em fevereiro e março, quando damos o start de todos eles, quando divulgamos os regulamentos e mobilizamos a classe estudantil. Esses projetos têm várias etapas que culminam com a realização da Mostra em outubro e com o Concurso Literário em novembro. São projetos que são desenvolvidos o ano todo. Com a pandemia, tivemos que suspender. No entanto, a gente aproveitou esse período para readequar nossos espaços culturais. Por exemplo, tivemos um problema sério no ano passado na “Estação Cidadania”, antiga Praça do CEU. Conseguimos fechar a última licitação no último dia 3, porque a empresa que venceu a licitação no ano passado não entregou os produtos. Tivemos que começar do zero. Já estamos com a biblioteca montada neste espaço, a sala do Infocentro com os equipamentos comprados, só faltando instalá-los. Essa semana começa a ser montada a parte de urdimento, cortinas, iluminação cênica do local. Na semana que vem tem o edital para aquisição do equipamento de som. O CRAS já está funcionando, os equipamentos de esportes estão comprados, só esperando a inauguração para iniciar as atividades. Lá tudo está caminhando e quando a pandemia passar a gente começa com mais este espaço cultural para atender aquela população dos conjuntos habitacionais, perto do CAIC. O Teatro Municipal também está passando por reformas. Regularizamos o piso do auditório, vamos trocar o carpete, reinstalar as poltronas e toda a vestimenta cênica está sendo trocada, tudo por produto antichama. Outra coisa, que ainda nem divulgamos, a gente fez uma captação através da Lei Rouanet (de incentivo à Cultura) para trocar o som e a iluminação do teatro. Como são equipamentos antigos, fica difícil conseguir peças de reposição quando dá um problema. Fizemos um projeto com a Associação Comercial, grande parceira nossa, e conseguimos captar R$ 102 mil para essas melhorias. Então, o Teatro vai ficar novinho para que, quando tudo passar, e vai passar, a população possa voltar a ter eventos de qualidade.
Imaginou algum dia que a Mostra Estudantil de Teatro nestes 25 anos de história deixasse de ser apresentada por conta de um vírus?
Essa pandemia tirou a gente de órbita. É um sentimento muito ruim, principalmente para quem vive de cultura. A gente via esse teatro lotado quer seja com projetos da casa, como na Mostra Estudantil, ou com projetos de terceiros. É um acontecimento muito estranho. Ainda bem que estamos tendo muito trabalho e com isso não paramos para pensar muito no coronavírus. Mas, essa quebra do calendário é algo que causa uma estranheza muito grande, dá um aperto no coração. Mas, isso vai passar e vamos recomeçar. Vamos dar tempo ao tempo. Acho que tudo isso que está acontecendo é uma grande lição para a humanidade. Temos que repensar muita coisa.

"É difícil imaginar que nada vai poder acontecer nos próximos meses. Temos que repensar muita coisa"

Em janeiro tem o Encontro Internacional de Palhaços, outro evento que deve sair do calendário, não?
Estamos vendo o governo cancelando até o carnaval em fevereiro. A gente torcia para que os eventos abertos pudessem acontecer e a gente não ficava sem nada nessa tradição cultural. É difícil imaginar que nada vai poder acontecer nos próximos meses. 
A cultura também tem que se readequar nestes tempos estranhos?
É, temos que olhar por um outro prisma e buscar alternativas para que as atividades culturais possam voltar quando isso passar. Essa lei veio para dar esse folego. Por isso, vamos tentar atender o maior número possível de pessoas.