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“Estamos em guerra  contra um inimigo que  não conhecemos”



“Estamos em guerra  contra um inimigo que  não conhecemos”

Os fernandopolenses passaram a conviver mais de perto esta semana com a realidade do coronavírus. A notificação de casos suspeitos que cresce a cada dia levou a prefeitura a adotar uma série de medidas restritivas, seguindo as orientações do Ministério da Saúde, para tentar conter a contaminação. Carlos Lima, farmacêutico bioquímico, especialista em saúde pública e diretor do Laboratório Paulista, que está realizando teste para o coronavírus, fez um alerta: “Estamos em guerra contra um inimigo desconhecido e as medidas protetivas que estão sendo anunciadas precisam ser  incorporadas no dia a dia pela população”. Nesta entrevista ao CIDADÃO, ele enfatiza que quanto mais rápido fizermos a lição de casa, mais rápido sairemos do problema. Carlos Lima passou uma parte de sua vida na Itália onde estudou e disse que o drama que o país vive hoje por conta do Covid 19 decorreu da demora do poder político entender o problema. “Não podemos repetir aqui no Brasil esse erro. O que a gente percebe é uma certa descrença, seja de autoridades, seja de pessoas, que poderiam estar contribuindo de maneira mais efetiva, se antecipando aos problemas que poderão vir. A entrevista é mais um alerta à população. Veja:

O Laboratório Paulista está disponibilizando exames para o coronavírus?

Sim, na realidade faz parte de um rol de todos os exames que o Laboratório faz, mas nesse momento, estamos prestando mais um serviço de saúde pública, prestando orientações a todas as pessoas que buscam por informações. O exame é um estudo do mapa genético.  

 

É preciso que haja uma consciência coletiva sobre as medidas protetivas e cada um fazer a sua parte

Numa situação como a que estamos vivendo, qual deve ser a postura de cada pessoa?

O grande momento é a informação. As medidas protetivas estão lentamente ganhando a simpatia da população, as pessoas estão interpretando como necessidade uma mudança comportamental e acho extremamente positivo. Subindo pelo elevador com uma usuária do Edifício Atlantis (no dia da entrevista), ela me dizia que acredita que muitas dessas medidas farão parte da cultura dos brasileiros. A principal delas é lavar as mãos. Ela dizia que observa nos restaurantes que as pessoas vão comer e não lavam as mãos antes das refeições. Alguns anos atrás nós tivemos um projeto “Amigos da Escola” com a Rede Globo e o foco nosso era orientação das crianças para diminuir o índice de parasitose e a regra básica era a higienização das mãos e é o que se preconiza hoje. Uma medida simples, é preciso que haja uma consciência coletiva sobre as medidas protetivas, porque cada um tem que fazer a sua parte. O que nós temos mais orientado as pessoas é o seguinte: está com sintoma de gripe, não faça deslocamento, passe a usar máscara até mesmo dentro de casa para evitar contaminação, separe os utensílios dentro de casa (prato, talher, copo, etc.) para que outros familiares não se envolvam com a possibilidade de contaminação até que haja um diagnóstico. O estado de São Paulo só vai fazer o teste para as pessoas internadas, então não há kit para todo mundo, não há máscara para todo mundo, não há álcool gel para todo mundo. Temos que criar uma consciência sobre quem deve usar máscara. No caso, quem está doente, sendo coronavírus ou não. Mude os hábitos, provoque a auto quarentena até que se verifique os avanços, não corra para os serviços de saúde, porque se for uma simples gripe, vai evoluir para a cura naturalmente, assim como o coronavírus na hora que finalizar o ciclo dele também. Cerca de 80%, pelos números que estamos vendo, evoluem ou são de uma modalidade branda. O problema é que já há uma discussão sobre mutação genética do vírus e isso é preocupante, como foi algum tempo atrás toda a discussão sobre a resistência do antimicrobianos, com o uso indiscriminado dos antibióticos que o governo passou a exigir receituário para aquisição desses medicamentos. Então, o que percebo é que é necessário um serviço de vigilância com foco na prevenção. A cidade já adotou medidas de restrição e o momento exige empenho de todos. Vai ser custoso, vai ser difícil.

 

Se todos, sem sintomas, decidirem usar máscaras vai faltar para as pessoas 
que precisam

Quando mais rápidos adotarmos as medidas restritivas, mais rápido sairemos do problema, mas tem pessoas que ainda hesitam em adotar as orientações?

Exatamente, a dinâmica é a seguinte. Quanto mais rápido fizermos a lição de casa, mais rápido, nós vamos obter as condições para avaliar as necessidades e a evolução para a vacina que em pouco tempo deve estar no mercado. Veja, muita gente tem o hábito de lavar as mãos para as refeições. Mas, o momento agora exige o aumento na frequência de lavar as mãos. O vírus está numa maçaneta, no caixa eletrônico, no botão do elevador e o modo de contágio é simples, de pessoa para pessoa, numa simples conversa, ou em um objeto contaminado tocado por uma pessoa doente. 

Na internet, existem receitas para se fazer o álcool gel que já falta nas prateleiras das farmácias. É seguro?

Na realidade estamos mexendo com produto inflamável, que apresenta riscos na manipulação, material volátil que gera vapores e isso é sempre um risco. Mas, isso não é fundamental. Tem outras medidas, simples, que ajudam a evitar a disseminação do vírus, como por exemplo, não entrar em casa com o calçado que veio da rua. Mais do que tudo, é a simplicidade das ações. Um simples resfriado neste período que vamos adentrar agora com o fim do período das chuvas, nós temos uma maior facilidade de disseminação dos vírus, tempo seco, vento. Então, se uma pessoa, uma vez dentro de um estado gripal, passar a usar máscara, como vemos muito no Japão, não para se proteger, mas para a proteção das pessoas que estão à sua volta, vamos demonstrar preocupação com o coletivo. Acho isso muito importante. Se todo mundo, sem sintomas decidir usar máscara não vamos ter máscara para as pessoas que precisam. As medidas são simples, porém, elas precisam ser praticadas. 

Você é especialista em saúde pública. Como avalia as medidas adotadas até aqui para conter a disseminação do vírus?

São medidas necessárias. Veja, a Itália, um país de primeiro mundo, com sistema muito bem organizado, demorou para tomar as medidas de contenção e virou o país. Acho extremamente necessário. Vai causar impacto econômico na vida das empresas, das pessoas? Sem sombra de dúvidas. A questão é adotar neste momento as medidas protetivas. Estamos diante de uma guerra com um inimigo desconhecido que se espalha rapidamente. Quanto mais as pessoas tiverem nível de consciência neste momento de que, cada um, com sua atitude em prol dela mesmo e em prol do coletivo, são fundamentais para se conter o vírus. 

Quando se fala em saúde pública, porque estamos tão vulneráveis a sucessivas epidemias de diferentes doenças?

Em saúde pública a pior atitude é da acomodação. Na questão da dengue, por exemplo, houve acomodação entre autoridades e uma acomodação relativa da população. No mundo moderno existe a facilidade de propagação. Primeiro, você tem a concentração de pessoas, tem facilidade de locomoção. Você embarca aqui às 10 da noite e no outro dia está na Europa. Você pode levar um vírus com uma facilidade muito grande. E o sistema de saúde não tem evoluído a contento. Evoluímos na pesquisa, na medicina curativa, mas não no atendimento. Basta ver o volume de pessoas que buscam o serviço de saúde.

Você passou uma parte de sua vida na Itália. Por que a Itália está sofrendo dramaticamente como o coronavírus?

Na realidade a Itália se dividiu em dois países, o país político instável, ninguém se entende, mais ou menos que estamos vivendo aqui no Brasil, e o país industrial, que funciona, que gera emprego que cria oportunidade para as pessoas. A parte política demorou para entender que havia necessidade para se criar barreiras de contenção do vírus. E as ações, quando chegam tardiamente, geram impacto significativo. Agora foram tomadas medidas protetivas. Mas, o que chama a atenção é a forma como os italianos estão encarando a situação, literalmente como uma guerra, e estão fazendo a sua parte. Ainda aqui no Brasil, o que a gente percebe é uma certa descrença, seja de autoridades, seja de pessoas, que poderiam estar contribuindo de maneira mais efetiva, se antecipando aos problemas que poderão vir. 
Neste início, a contaminação pelo coronavírus atinge a classe média alta, que viajou para exterior e trouxe o vírus para o Brasil. A preocupação é a hora que esse vírus chegar à periferia das cidades...
Sem dúvida, é por isso que as pessoas precisam entender que esse é o momento de limitar sua movimentação. Se cada um tomar sua medida de contenção, nós teremos talvez uma passagem branda. As restrições que foram pedidas são para se evitar aglomerações, lavar as mãos com frequência e aqueles que apresentam estado de gripe ou resfriado, se protejam, separem copo, prato e talheres. São medidas que antigamente nossos avós tomavam. No Japão, uma pessoa gripada vai ao metrô e não existe ninguém criando uma repulsa sobre ela. Pelo contrário, são enaltecidas porque está gerando um compromisso de cuidar das pessoas que estão à sua volta.

 

As pessoas não precisam ficar desesperadas atrás de álcool gel, máscaras. É água e sabão que tem em casa

Com sua experiência em saúde pública, consegue imaginar o cenário para as próximas semanas?

Em saúde pública você trabalha com todos os cenários possíveis, do mais brando ao caótico. O que faz a diferença é que, quando as lideranças se colocam e assumem posição, as medidas se tornam mais eficazes. Se as pessoas passarem a interiorizar essa necessidade de precaução, acho que a gente vai caminhar bem até que se tenha uma vacina e possa então desenvolver uma vacinação em massa. Nós estamos vendo muitas atitudes pontuais, porém, extremamente positivas para barrar o avanço do vírus, mas é preciso que a população faça sua parte. Muitos hospitais suspenderam cirurgias eletivas, que podem esperar, e abriram novos leitos de UTI para atender a população. Essas medidas vão se somando uma as outras para criar a barreira de proteção. Agora, de nada vai adiantar se todo mundo em casa resolver fazer uma festa. Então, o que se pede é evitar aglomerações.

Qual a mensagem à população?


A mensagem é que as pessoas não fiquem desesperadas atrás de álcool gel, máscaras, isso e aquilo. É água e sabão que tem em casa, no trabalho. Tire o calçado antes de entrar em casa, se hidrate, tome bastante água e lembre-se que, devem usar máscara quem estiver com gripe para não contaminar outras pessoas. Pessoas idosas, com alguma doença crônica, se resguarde neste momento, mais do que os outros. O importante é se informar e agir de forma se proteger e proteger as pessoas ao seu redor.