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“O teatro na escola transforma e socializa”



“O teatro na escola transforma e socializa”

No teatro há 12 anos, o fernandopolense Leandro Vieira, 26 anos, leva o seu grupo, a Ciatria, para uma apresentação inédita, longe do palco do Teatro Municipal. A peça “A Cela” será apresentada neste domingo, 16, em sessões às 16 e às 20 horas no Chalé Acústico. A apresentação, além do local, tem outra faceta. Leandro dá uma guinada no gênero: vai da comédia para o drama. “Me identifico mais com a comédia, sou um ator, como dizem, de veia cômica. Tenho essa intimidade com a comédia, de acreditar que o riso, que a sensação de alegria nas pessoas é algo muito especial. Fui para o drama, por várias questões, uma delas pela necessidade das pessoas, a internet mostra isso, como as pessoas estão carentes, como estamos dependentes. A arte está para questionar”, diz nesta entrevista ao CIDADÃO. Cria da Mostra Estudantil Teatro, Leandro diz que o teatro na escola é transformador e socializador. “A mostra é uma grande realização da cidade e digo que ela é o melhor evento que a prefeitura desenvolve, porque são muitas crianças e jovens que participam”, afirma. Veja a entrevista:  
Você é cria da Mostra Estudantil de Teatro de Fernandópolis Quando tudo começou?
Faz 12 anos, comecei na Mostra em 2008. Peguei gosto, até achei que era algo que não ia querer pra mim, mas depois vi que a arte estava comigo e não ia conseguir abandonar.
Hoje o seu mundo é a arte?
Já trabalhei em outras coisas também, até por questão de sobrevivência, mas eu me dedico totalmente ao teatro, mesmo não tendo estabilidade, mesmo não sabendo como vai ser no próximo mês, eu acredito na minha arte.

Você saiu de Fernandópolis e foi pra São Paulo. Como foi?
Em São Paulo fiz um curso de cinema, teatro e fui conhecendo pessoas, trabalhei em grupos de teatro, também numa empresa que trabalhava como teatro empresarial e foi onde me descobri em outro segmento, dando palestras para empresas grandes dentro das Cipats (Comissão Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho) e fui me virando com isso em São Paulo.  Eu gostaria de me fixar num lugar só, mas não consigo abandonar a Mostra Estudantil de Teatro onde eu trabalho com a Unati (Universidade Aberta da Terceira Idade). Tem também o grupo de jovens (A Ciatria) e que é o único grupo ativo de teatro. Quero fazer com que o Teatro de Fernandópolis continue se movimentando, não que dependa só de mim. Eu vejo essa falta e o pessoal cobra. 
No teatro, o que prefere: comédia ou drama?
Me identifico mais com a comédia, sou um ator, como dizem, de veia cômica. Tenho essa intimidade com a comédia, de acreditar que o riso, que a sensação de alegria nas pessoas é algo muito especial. Sempre vi a comédia como uma grande ferramenta de comunicação, de forma mais direta com as pessoas, facilitando o entendimento. Até nas palestras que faço, as vezes falo de assunto sério, mas de forma mais descontraída que é onde a gente prende as pessoas.
Mas, agora você dá um mergulho no drama?
Sim, fui para o drama por várias questões, uma delas pela necessidade das pessoas, a internet mostra isso, como as pessoas estão carentes, como estamos dependentes. A arte está para questionar, a arte serve para as pessoas se identificarem. Então vi no gênero drama a possibilidade das pessoas se identificarem por um outro mecanismo e possam vivenciar as coisas de forma mais emotiva.

A arte está para questionar, serve para as pessoas se identificarem


Na peça “A Cela” que o grupo apresenta neste domingo no Chalé Acústico, as pessoas podem se identificar com alguma situação do cotidiano?
Sim, até porque tem gente que pensa que não precisa de um psicólogo, de um terapeuta, de algum acompanhamento. Eu mesmo fazendo o espetáculo vi que é necessário conversar com alguém, falar sobre os meus problemas, aquilo que ainda não entendo em mim. Acredito que o público assistindo o espetáculo vai ter a mesma sensação, ao ver a personagem que sofre com depressão, a personagem que sofre com crise de ansiedade, a personagem que sofre com homofobia. São questões delicadas, que as vezes a gente não sabe como lidar e o espetáculo vai trazer essa reflexão. 
Onde se sente mais à vontade, no palco, na direção ou na autoria?
Eu me vejo como ator, mas um ator que também se propõe a escrever e dirigir. Na verdade, direção é o último, é o com o que menos me identifico. Primeiro é ator, depois a escrita que me envolve muito. 
No seu círculo familiar e de amizade, qual foi a reação quando fez a escolha pelo teatro?
Desde criança, tinha 6, 7 anos, eu já desenhava e fazia gibis e até usava a família como personagem. Já gostava de escrever ali. Fui escrevendo e quando fui para a Escola Saturnino e entrei na Mostra Estudantil de Teatro, vi que no ano seguinte não ia ter mais ninguém para dirigir. Foi onde me propus a escrever e dirigir. A minha avó (Luzia) foi a primeira a me ver escrever e me incentivava bastante. Pedia para ler o que estava escrevendo, pedia para ver os desenhos. A minha mãe (Gisele) sempre gostou também, acho até que ela teve vontade de ser atriz lá atrás. Todos os meus familiares tiveram uma recepção legal, acho que eles acreditaram naquilo que estava me propondo a fazer. 
Televisão está no seu sonho na carreira?
Eu me identifico muito com teatro, gosto também de cinema. Acho que tudo é consequência, vai trazer estabilidade financeira, caso consigo algum trabalho em TV ou cinema. Não me deslumbro, não tenho isso como grande objetivo, porque em São Paulo, nesse meio, conheci pessoas frustradas, que estão há anos tentando, as vezes se submetem a certas situações. Particularmente preferi fazer as coisas com calma, fazer o meu teatro e o que tiver que acontecer, vai acontecer naturalmente.
Estamos vivendo no Brasil um momento de confrontos e a cultura, as artes, estão no meio de um debate político. Você que é do interior, convive em São Paulo, como observa esse quadro?
Existem muitas mentiras sobre quem se propõe a fazer arte. Acho que é por conta do momento político, os artistas estão sendo atacados de forma covarde e ingrata. Nós que fazemos teatro, quem mexe com cultura, com as artes, mexe com o lado emotivo das pessoas. Agora, do nada, algumas pessoas deram as costas, a gente não precisa de artistas. Como não precisa? Quem não precisa escutar uma música no seu momento particular? Quem não gosta de dar boas risadas num stand up que seja, ir no teatro, para se divertir, para se emocionar, assistir novelas, ler um livro? Quem não está envolvido com tudo isso. Então, acho um pouco ingrato, essas pessoas por desavenças políticas tratam a arte como se fosse algo descartável, que não precisa. 

Me identifico mais com a comédia, sou um ator de veia cômica

Fale do grupo Ciatria...
Começou com o grupo Encena no período que trabalhei no comércio de Fernandópolis, numa Loja da Oi que acabou fechando. Gostava de trabalhar, me via como vendedor, mas pensei que não era possível continuar fazendo algo que não era eu, que não fazia parte de mim. Resolvi apresentar teatro todo mês em Fernandópolis, na época era o Vic Renesto secretário de Cultura e propus trazer todo mês um espetáculo ou pelo uma vez a cada dois meses. Ai começou o grupo, chamei algumas pessoas que faziam teatro comigo nas escolas, pessoas mais engajadas. Foi tomando uma proporção grande e hoje posso dizer que já chegou a quase 200 pessoas, contando com atores, gente de técnica, jovens, adolescentes, idosos, já passaram pelo grupo que era Encena e se tornou Ciatria, por que vi a necessidade do grupo se tornar algo mais profissional. Cia é de Companhia e tria vem de triar, de criar caminhos, possibilidades, de fazer o que você quiser, de poder trilhar o seu caminho.   
Embora você diga que deixa as coisas acontecerem naturalmente, você tem uma expectativa. Onde quer chegar?
Acho que meu objetivo, minha expectativa, é poder viver da arte, sem ficar preocupado sobre como vou pagar minhas contas no mês que vem. Então, ter estabilidade financeira é uma preocupação de qualquer pessoa, independente se vai ser teatro, no cinema ou na TV. Se estiver com minha tranquila, vou estar bem, fazendo o que gosto, de poder usar o meu trabalho cultural para desenvolver o interesse das crianças, dos adolescentes e dos idosos, que é o grupo que mais me identifico, que mais gosto de trabalhar. 
O que sustenta a Mostra Estudantil de Teatro, um projeto de 25 anos em Fernandópolis, mesmo sabendo que a Cultura nunca é prioridade de governo?
Acho que é a vontade dos estudantes, muito mais de quem dirige, mais do que a própria prefeitura, das pessoas envolvidas. Acho que a Mostra se mantém neste tempo pelos estudantes. Hoje na mostra ganhou força presença de diretores mais jovens. Eu mesmo comecei com 15 anos. Isso mostra a força dos estudantes, de querer que ela aconteça. A mostra é uma grande realização da cidade e digo que ela é o melhor evento que a prefeitura desenvolve, porque são muitas crianças e jovens que participam. E tem muita gente por aí, trabalhando com isso. 

A Mostra Estudantil é uma grande realização da cidade

Como é o bastidor de um trabalho como esse na escola?
A escola é bem engajada, não todas, mas os diretores veem a importância do teatro no desenvolvimento da criança. Quando eu era o aluno, via que o teatro me ajudou muito, principalmente para vencer a timidez, me proporcionou  ter uma relação mais interativa com as pessoas. Então, o teatro dentro da escola caminha para esse lado. Temos exemplo de mau aluno dentro da sala de aula e dentro do teatro se encontrou e mudou completamente. O teatro transforma e socializa...