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“Temos espaço para nova flexibilização”, diz médico



“Temos espaço para nova flexibilização”, diz médico

Às vésperas de nova etapa da flexibilização da quarentena, o médico infectologista Márcio Gaggini, coordenador do Comitê de Contingenciamento da Covid-19 em Fernandópolis faz um balanço da pandemia. Segundo ele, é difícil prever quando vamos atingir o pico de contaminação e iniciar a curva descendente. Em entrevista ao CIDADÃO, o médico explicou que o aumento de casos que vem ocorrendo desde a semana passada já era esperado e apontou o fato de Fernandópolis ter aumentado a capacidade diagnóstica com a chegada de kits de testes rápidos do governo do Estado. “Então, o aumento da nossa capacidade diagnóstica foi um dos fatores que fez aumentar o número de casos. Apesar do aumento de casos, ele diz que a cidade está preparada para a flexibilização. Leia a entrevista:

Nos últimos dias aumentou o número de casos positivos de coronavírus. Quais fatores podem ter contribuído para essa curva ascendente?

Creio que que isso se deve a dois fatores: um é que aumentou nossa capacidade diagnóstica. Recebemos do Estado vários kits de testes rápidos e estamos testando em algumas situações especiais. Além disso, o governo ampliou mais as situações em que podemos pedir exames que detectam o vírus. Então, o aumento da nossa capacidade diagnóstica foi um dos fatores que fez aumentar o número de casos. Teve também o feriado do Dia das Mães que fez aumentar o fluxo de pessoas na cidade e também pode ter contribuído. Mas, isso já era esperado pela curva que o vírus está apresentando no país.

“A gente está diagnosticando pessoas de todas as idades, de crianças até pacientes mais idosos”

Esse número em ascendência causa preocupação?

Já estávamos esperando um aumento de casos e o que estamos vendo é que esse aumento é muito por conta do teste rápido que identifica pacientes que já tinham tido contato e agora foram diagnosticados. Isso é muito bom porque, quando encontramos um caso positivo a gente procura todos os que tem fator de risco ao redor dessa pessoa, busca quem está com sintomas e faz o exame também e com isso podemos iniciar o tratamento precoce o que ajuda na evolução do paciente de forma benigna.

A subnotificação ainda existe em que pese o aumento da capacidade diagnóstica?

Existe. Nós temos muitos mais casos do que foram diagnosticados até agora. Não estamos contando os assintomáticos (que não apresentam sintomas). A gente sabe que 80 a 90% da doença são de pacientes assintomáticos. Não temos ainda a capacidade de testar assintomáticos, numa segunda etapa, provavelmente, o governo deve liberar esses exames para gente testar uma população maior. Por enquanto, estamos testando os que têm fator de risco e que tenham sintomas como no caso de uma gripe mais forte, com tosse, falta de ar, perda de olfato, paladar. A gente também está se preocupando com o pessoal da área da saúde, da segurança pública, desde que tenha também sintomatologia.

Recentemente tivemos dois casos de crianças em um conjunto habitacional, onde as pessoas moram muito próximas. Como o senhor avalia a situação neste local?

Em qualquer local da cidade onde tenha um caso positivo, a equipe do Programa Saúde da Família da Unidade de Saúde do Bairro, faz todo um trabalho com os moradores no entorno. O que podemos dizer é que neste caso citado e em outros, está tudo sob controle.

“Não dá para saber quando chegaremos ao pico, depois a estabilização e a curva decrescente”

Os números mostram que o vírus tem chegado com mais força ao interior. São mais de 500 municípios com casos positivos e também o registro de óbitos em cidades pequenas. São números preocupantes?

A gente se preparou para isso. Quando fizemos uma unidade própria na Santa Casa sabíamos que o vírus ia chegar, até porque estamos por volta de três semanas atrás em relação à capital que é o epicentro de casos. Então, o que estava acontecendo na capital três semanas atrás é o que está ocorrendo agora no interior. Não dá para falar ao certo quando será o nosso pico porque não fizemos nenhuma quarentena de forma rígida como foi feita nos países da Europa. Ficamos com uma quarentena intermediária e liberação de comércio. Já estava esperando esse aumento de casos, provavelmente, vamos ver o número aumentar nas próximas semanas. Não dá para saber quando chegaremos ao pico, depois a estabilização e a curva decrescente. Por isso, é muito importante a população, principalmente as pessoas do grupo de risco, evitar sair de casa sem necessidade. Já tivemos uma flexibilização no comércio, e segunda-feira começa outra etapa, então é importante que, quem puder, fique em casa, evitando se contaminar, porque o vírus está circulando na cidade.

A cidade está preparada para essa nova etapa de flexibilização?

Com relação ao parâmetro de ocupação de leito hospitalar que é levado em conta para a flexibilização, podemos dizer que estamos com uma ocupação pequena em comparação a capacidade que temos. Então, acho que temos espaço para flexibilização. Mas, caso aconteça algo diferente nas próximas semanas, podemos mudar.

A cidade vem registrando aumento de casos. Algum grave com risco de morte?

Nós tivemos casos graves internados com comprometimento de mais de 50% dos pulmões, só que não houve necessidade de intubação. Isso foi uma felicidade para nós, como também o fato de não registrarmos até o momento nenhum caso de óbito. Estamos atentos e seguindo os protocolos usados por grandes hospitais do país e isso está possibilitando os resultados satisfatórios. O diagnóstico precoce está ajudando muito. Mas, nada impede que possa acontecer algum óbito no futuro. Estamos sujeitos a isso, pela letalidade do vírus que está se vendo em todo o mundo e que muitas vezes ocorre pela demora do diagnóstico, o que aumenta as chances de uma intubação e da evolução para o óbito. Temos cidades ao nosso redor com número menor de casos e já com óbito registrado. Então, temos que agradecer muito. Perder uma vida é sempre difícil, é sempre uma dor enorme.

“No tratamento usamos protocolo dos grandes hospitais.

Qual o perfil das pessoas infectadas pelo coronavírus?

No caso das internações, a maioria é do chamado fator de risco, acima de 60 anos, mas a gente já teve internação de pessoa fora desse fator de risco. Agora, no geral, a gente está diagnosticando pessoas de todas as idades, de crianças até pacientes mais idosos.

Tem muita polêmica em relação ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Está se usando esse medicamento em Fernandópolis?

A gente usou no início, antes de sair os últimos trabalhos de que não tem comprovação científica do seu êxito. O protocolo que foi anunciado pelo Ministério da Saúde foi muito ingrato porque jogou a responsabilidade em cima do médico e  o paciente tem que assinar um termo de compromisso assumindo que está usando um medicamento que dá muito efeito colateral. Sem essa segurança, a gente não pode dar um medicamento que não tem comprovação científica do seu benefício e que ainda ter efeitos colaterais graves.

E qual protocolo está sendo usado no tratamento dos doentes?

A gente utiliza aqui o protocolo adotado por grandes hospitais com uso de corticoides nos casos mais graves, anticoagulantes e antibióticos.

Neste tempo convivendo com os casos de coronavírus, o senhor consegue definir um tempo que ainda vamos ter de conviver com o vírus?

Aqui no Brasil, na comparação com o resto do mundo, a gente vê que a curva não é muito regular. Por isso, é muito difícil dizer até quando vamos conviver com essa situação. Não temos uma quarentena rígida e também não temos a liberação total do comércio. Se a gente pegar a curva de outros países, Inglaterra, Itália, Espanha, as curvas já estão controladas e em descendência. As piores curvas neste momento no mundo são do Brasil, em ascendência, México, Índia e Peru. São os países que terão nas próximas semanas os maiores números de casos. Estados Unidos também está em queda no número de casos. Por isso, quanto mais a gente puder ficar em casa, evitar aglomerações, lavar as mãos com frequência, usar máscara, teremos maior chance de mudar esse nosso futuro. No momento, esse futuro não é bom em nosso país.

Dos casos registrados até agora, vários são de profissionais de saúde. Quantos já foram infectados?

Dos que trabalham aqui em Fernandópolis, foram cinco casos. Mas, temos casos de profissionais de saúde que trabalham em outras cidades, mas moram em Fernandópolis e que diagnosticamos aqui. São nove casos de profissionais de saúde. 

“Se ficar doente não vou usar a hidroxicloroquina. Não vou esconder nada da população”

De quando começou o trabalho do Comitê de Contingenciamento do Coronavírus em Fernandópolis para o hoje, entre a expectativa do que estava por vir e o que já foi vivenciado, qual sua avaliação?

Acredito que foi um percurso mais tranquilo pelas medidas que foram tomadas e pela população que colaborou muito no início e que ajudou muito a gente ganhar tempo para se preparar. Fernandópolis foi a primeira cidade a adotar o isolamento e isso surtiu resultado. Então a gente destaca o apoio da população, o trabalho da Prefeitura, das equipes das Unidades de Saúde da Família, da UPA, do Cadip, do Samu, da Santa Casa, da Unimed, da Vigilância em Saúde, como também da Segurança Pública, dos serviços essenciais que enfrentaram com coragem essa pandemia.

Quais são as recomendações que o senhor deixa à população?

Esse é um período que temos que ficar atentos. Estamos entrando em período de aumento de casos e quem puder ficar em casa, deve seguir essa recomendação. Acreditar nas informações que estão sendo passadas, infelizmente, tem muitos questionamentos dizendo que estamos omitindo informações. Não é minha função aumentar ou esconder dados da população. Não vou mentir para a população. Não quero que tenha nenhum óbito na cidade, isso entristece muito a gente. Mas, não vou esconder isso de ninguém. Podem acreditar nas informações que estamos passando. Tudo que está sendo divulgado é o real. Eu já tive alguns sintomas de resfriado, testei para o coronavírus duas vezes, mas Graças da Deus, deu negativo. E se um dia der positivo, vou falar, sem problemas. Se ficar doente não vou usar a hidroxicloroquina. Não vou esconder nada da população. O melhor para um médico, pelo sacrifício neste momento, é ver que estamos salvando vidas e isso vale mais que tudo. Esse é o nosso maior prêmio.