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A fernandopolense que foi eleita reitora de universidade federal



A fernandopolense que foi eleita reitora de universidade federal

A fernandopolense Roselma Lucchese foi destaque no CIDADÃO de sábado, 23, pelo encontro com o Papa Francisco durante evento “Organizando a Esperanza” no Vaticano que reuniu o Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras. Como reitora da Universidade Federal do Catalão (GO) Roselma teve a oportunidade de tocar as mãos do Papa e receber a benção, experiência que ela conta ter sido “transformadora”. Já em Catalão, onde mora, Roselma, foi entrevistada, via internet, pela Rádio Difusora FM e jornal CIDADÃO quando relatou a experiência que viveu no Vaticano ao lado de reitoras e reitores de Universidades da América Latina, Caribe e Itália durante o encontro com o Papa Francisco. Falou também da menina de Fernandópolis, de uma família tradicional (a família Luchese), que se formou na terceira turma de enfermagem da FEF, fez especializações na USP, passou em concurso para universidade federal e que chegou ao posto de reitora da Universidade Federal do Catalão, primeiro nomeada para cuidar da implantação,  e agora eleita com 72,3% dos votos para ser a primeira reitora da universidade. “Sai de Fernandópolis e tenho orgulho da minha história, da minha base”, diz nesta entrevista. Leia:

Conta sobre a experiência que você teve na quinta-feira, 21, durante encontro com o Papa Francisco no Vaticano?

A gente tem que considerar esta experiência em duas dimensões. Primeiro, a experiência como gestora pública, de uma instituição de ensino superior pública federal. Nós tivemos um chamado do Papa e foi uma reunião longa. Antes fizemos um encontro preparatório, um dia todo de grupos de trabalhos em que reitores de vários países, principalmente da América Latina como Chile, Argentina, Brasil, México, Venezuela, Colômbia, Caribe e Itália. Nos reunimos para preparar essa carta para o Papa Francisco. Ele fez um chamamento dos grupos internacionais de universidades, principalmente as públicas, para que possamos nos comprometer com pautas mundiais, principalmente o combate à pobreza, crise social e humana, a crise ambiental e o desenvolvimento sustentável. São pautas no qual o Vaticano está extremamente interessado como responsabilidade para as próximas gerações. Esse clube de universidades brasileiras e latinas americanas se reuniu para assumir um compromisso com o Papa Francisco para que o ensino e a pesquisa extensão sejam pautados nesses interesses mundiais, principalmente se importando com aqueles mais vulneráveis do mundo. Foi um momento político, não foi uma reunião religiosa, em que o líder da religião católica nos convida para isso. O encontro com o Papa foi para apresentar o que foi discutido. Ficamos com o Papa Francisco numa audiência de mais de uma hora e meia em que discutimos todas essas questões. Ele nos deu uma aula com o máximo de vigor sobre essas pautas mundiais. Selamos ali um compromisso com essas pautas propostas pelo Papa e que é de interesse mundial. Foi um encontro político extremamente importante.

E o seu sentimento nesse encontro com o Papa?

Essa é a segunda dimensão dessa experiência. Me apresentei como reitora da Universidade Federal de Catalão (GO) e recebi as bênçãos do Papa. Trocamos apertos de mãos e olhares incríveis. Recebi a benção como gestora, mas também como pessoa e não tem como não ser tocada na alma com o olhar doce e profundo do Papa Francisco. É um olhar penetrante, algo que pode modificar a sua vida no sentido de que você está perto de uma pessoa que representa tanto, uma pessoa que traz a santidade, o interesse político, o interesse religioso, pela humanidade, uma pessoa para além da história. Como gestora, saí feliz do encontro por estar colocando minha instituição nesse rol internacional de discussões e de práticas. Como pessoa, a gente sai modificada e tocada por um encontro que emana uma energia muito positiva, passando uma tranquilidade extrema. Não tenho precedentes na vida para dizer o quão essa experiência foi transformadora.

"Sai de Fernandópolis e tenho orgulho da minha história, da minha formação, da minha base para chegar até aqui"

Em algum momento na vida, imaginou um dia estar diante do Papa, segurando sua mão?

Já me considerava uma pessoa muito feliz por ter conhecido algumas pessoas no meu caminho que para mim são únicas, mas nunca pensei em viver uma experiência como essa, imaginar que um dia estaria diante do Papa e tocar em suas mãos, ainda mais se tratando de um Papa latino-americano com uma história de tanta identidade com o nosso país, com a nossa vida, tão preocupado com o mundo. Quando recebi o convite em meados deste ano, imaginei que estaríamos em uma sala com o Papa, para entregar um documento. Mas, não imaginava, até na véspera, que teria a oportunidade de tocar em suas mãos e receber a benção individual. Sai desse momento com as pernas bambas, taquicardia e ainda não acreditando muito no que havia acontecido.

"Não tem como não ser tocada na alma com o olhar doce e profundo do Papa Francisco"

A senhora é de uma família tradicional da cidade. Como foi essa trajetória até chegar ao posto de reitora de uma universidade pública?

Eu sou uma menina fernandopolense como todas que estão aí, de uma família tradicional sim, amo minha terrinha, fiz faculdade na FEF, sou da terceira turma de enfermagem e fui para Ribeirão Preto para concluir o curso. Naquele tempo a gente fazia o último ano em aprimoramento. Fui para a USP de Ribeirão Preto, fiz psiquiatria, saúde mental e retornei. Fernandópolis me deu o título de enfermeira e também me proporcionou ter as primeiras experiências profissionais. Fui professora da FEF por muitos anos, colaborei com a formação de muitos outros enfermeiros e farmacêuticos. Isso foi a minha base, trabalhar com um grupo muito forte de 12 enfermeiros que trabalharam comigo naquela época. Tive uma base muito sólida, tanto pela FEF, como pelos colegas de trabalho. Não seria hoje o que sou se não tivesse tido essa oportunidade. Fiz mestrado e doutorado na USP de São Paulo, ainda trabalhando na FEF. Tive minha filha, a Lara, em Fernandópolis ela que hoje é uma engenheira de minas trabalha na Vale em Belo Horizonte. Fui prestar concursos públicos. O primeiro que passei foi na Universidade Federal do Mato Grosso, fiquei em Cuiabá um tempo e fui para Catalão (GO) na época da expansão em 2008 para montar os cursos na área da saúde, porque estava iniciando essa base. Vim para Catalão transferida. É uma cidade pujante com cerca de 120 mil habitantes, muito próspera, com duas montadoras e mineradoras multinacionais e uma agricultura forte. E vim então da UFMT para a UFG e fui assumindo cargos de gestão, na época da ampliação do campus. Em 2018 me candidatei a diretora do campus e fui eleita. Nesse interim a UFG foi desmembrada e nisso tivemos a criação da Universidade Federal de Catalão. Como já era gestora de campus, envolvida com a gestão geral, fui nomeada como reitora pró-tempore para implantar a pessoa jurídica da universidade. De 2019 prá cá me ocupei muito com essa função, de transformar essa regional Catalão, que tem mais de 40 anos, em uma universidade. E agora, recentemente, passei por uma eleição para o primeiro reitorado da universidade, porque o pro-tempore é nomeado diretamente pelo presidente da República. Fui candidata e venci com 72,3% dos votos. Estou aguardando a minha nova nomeação para ser a primeira reitora da Universidade Federal de Catalão, o que deve ocorrer em janeiro. Fui me descobrindo como gestora, além de professora. As coisas foram acontecendo, às vezes sem muito planejamento, você mira nos concursos públicos e acaba assumindo essas funções.

"Fui candidata a primeira reitora da Universidade Federal de Catalão e venci com 72,3% dos votos"

A sua trajetória de formanda na FEF para o cargo de reitora de uma Universidade Federal mostra que há oportunidades para todos, não?

Tem oportunidade para todos. Sou do interior de São Paulo, sai de Fernandópolis e tenho orgulho da minha história. A Fundação Educacional foi a base de tudo para mim e para meus colegas de trabalho que aí ficaram ou que estão distribuídos pelo País. Isso é um orgulho. Recentemente defendi o título de titularidade, cheguei no topo da carreira da universidade e fiz um memorial para contar um pouco dessa minha trajetória e foi tão importante e significativo resgatar a minha origem, que é forte. O que sou hoje eu trago de Fernandópolis, a nossa terrinha, da nossa Fundação, dos meus colegas iniciais de trabalho. Isso a gente carrega para o resto da vida e nos fortalece para seguir em frente. E para os que estão buscando um caminho, a gente precisa acreditar que somos potentes e a gente se realiza. Eu sou uma mulher realizada e feliz. E sou de Fernandópolis...

 

 

 

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