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Cuidando das emoções



Cuidando das emoções

O psicólogo André Marcelo Lima Pereira, após atuar por 10 anos como psicólogo hospitalar na Santa Casa, onde enfrentou todo o drama gerado pela pandemia da Covid-19, está há 7 meses na Unidade de Reabilitação Lucy Montoro de Fernandópolis vivenciando uma nova realidade na atenção a pacientes com sequelas de acidente vascular encefálico ou de acidentes de trânsito com amputações traumáticas. Ele atua também como professor da Universidade Brasil. Mas, nem sempre foi assim. Na entrevista ao programa “Crias da Casa” da Rádio Difusora FM (aos sábados às 10 horas) André contou sua trajetória de vida e revelou que terminou o ensino médio através do telecurso 2000, se formou técnico de enfermagem enquanto trabalhava na Alcoeste, foi vendedor de consórcio e só depois se formou em psicologia, onde começou atuando com psicólogo organizacional. “De manhã trabalhava na empresa e a tarde na UTI da Santa Casa como técnico de enfermagem. Foi quando surgiu a vaga para psicólogo hospitalar”, relatou.

Agora pós-graduado em Gestão Empresarial e Pessoas, especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia e mestre em Ciências Ambientais ele atua na rede Lucy Montoro e é professor na Universidade Brasil nos cursos de psicologia, enfermagem e medicina. Durante mais uma hora, o psicólogo falou de diferentes temas como a experiência com a Covid, a nova fase no Lucy Montoro e do drama que afeta muitas pessoas: a síndrome de bournout ou síndrome do esgotamento profissional. Leia trechos da entrevista:

Hoje você é psicólogo, professor e atua no Lucy Montoro. Como foi chegar até aqui?

Minha vida sempre foi de sacrifício. Venho de uma família em que o pai dizia que estudar era para rico, que pobre tinha que trabalhar. Por algum tempo comprei essa ideia como verdade. Fui percebendo mais tarde que não era bem assim e mudei o meu olhar. Terminei o ensino médio fazendo o telecurso 2000. Logo em seguida fiz o curso técnico de enfermagem enquanto trabalhava na Alcoeste descarregando caminhão de cana de dia e estudava à noite. Em 2002, já tinha terminado o curso de técnico de enfermagem, mas fui trabalhar como vendedor de consórcio de moto no Piveta Motos e fiz isso por dez anos, tendo sido promovido a supervisor de vendas, cuidando de uma equipe com oito vendedores. Surgiu então a possibilidade de fazer o curso de psicologia na FEF. Me formei em 2009 e fui trabalhar na empresa onde fiz o estágio, a Sgotti, onde permaneci por cinco anos. Nessa época trabalhava de manhã na empresa como psicólogo organizacional e a tarde na UTI da Santa Casa como técnico de enfermagem. Surgiu então a oportunidade na Santa Casa para atuar como psicólogo hospitalar. Deixei o técnico de enfermagem, deixei a psicologia organizacional e fui viver a nova experiência na psicologia hospitalar onde permaneci por 10 anos. Nesse período comecei a atuar como professor na Faculdade Fama de Iturama. Então, sempre tinha dois empregos. No ano passado veio a virada maior, deixei a Santa Casa e a Faculdade e fui trabalhar na Universidade Brasil com aulas nos cursos de psicologia, enfermagem e medicina. Nesse ínterim, surgiu o processo seletivo da Rede Lucy Montoro na unidade de Fernandópolis, fui aprovado e estou na equipe do Dr. Flávio Benez já há 7 meses. É um outro aprendizado, poder trabalhar com crianças de 6, 7 anos, até pessoas com 80 anos, com sequelas de acidentes vascular encefálico, amputações traumáticas. Temos muito a agradecer por fazer parte de uma equipe multi e interdisciplinar fantástica. O Lucy Montoro, só para explicar, trabalha no formato multi e interdisciplinar para contemplar um dos princípios do SUS que é a integralidade. Quando a gente fala em multi é porque tem o psicólogo, tem o fisiatra, o fisioterapeuta, a enfermagem, o condicionador físico, a terapeuta ocupacional, a fono, o serviço social. Inter, porque essa equipe senta e discute cada caso sobre a evolução do paciente.

"A covid foi um período triste, pantanoso, uma doença assustadora, que gerava crises de ansiedade"

Durante dois anos você trabalhou na UTI Covid na Santa Casa. Como foi essa experiência?

Passei pela Santa Casa por 10 anos, prestando trabalho na psicologia hospitalar e foi um período gratificante. Tudo que faço, é com muita dedicação. Eu visto a camisa e mergulho naquilo que faço. Acho que esse é o segredo para que as pessoas sejam felizes no trabalho. A Covid foi um momento muito delicado, um período triste, pantanoso, onde vivenciamos muitos óbitos diários. Não me afastei nenhum dia do trabalho. Não queria me ver longe daquele cenário, da missão de ajudar não apenas os pacientes, mas os familiares e a equipe que enfrentava também os medos de uma doença assustadora, que gerava crises de ansiedade. Me lembro um dia chegando na unidade 5, adaptada para UTI Covid, no posto de enfermagem, a médica residente passando o boletim informativo para a família em lágrimas. Aquilo me tocou, porque quem está do lado de fora não vê essa situação, que é trabalhar com o sofrimento do outro. Por isso, digo que a pandemia foi um momento muito complexo.

No Lucy Montoro você trabalha com problemas traumáticos que envolve o paciente e a família. Como cuidar?

Quando falamos de adoecimento não podemos negligenciar a família que é a rede de apoio do paciente. É a referência e esses vínculos precisam ser reforçados para que o paciente se sinta pertencente ao grupo referência que é a família. A psicologia trabalha nesta direção, com pacientes que tinham uma identidade e hoje possuem outra, são dependentes. Temos pacientes com traqueostomia, com sondas, uma série de situações que atingem o emocional não apenas do paciente, mas da família a quem cabe cuidar. Aqui no nosso município temos o programa Melhor em Casa (Saúde Municipal) que vai na casa dos pacientes para orientar os familiares. Quando falamos do Lucy Montoro temos que entender que fazemos parte de uma rede de atenção. Atuamos na atenção terciária e esse paciente é referenciado para a Estratégia da Família da qual esteja vinculado para a atenção primária quando ele deixa o Lucy Montoro.

"O ser humano não é máquina e as empresas precisam olhar para seu capital humano com empatia"

Hoje muito se fala da síndrome de Burnout. O que vem a ser essa síndrome?

Quando se fala de estresse no trabalho, de síndromes e das pseudos patologias oriundas do trabalho, que foi o tema da minha dissertação de mestrado, precisamos ter um olhar sobre o todo. Olho com ressalva essa questão, porque o ser humano é complexo. As empresas precisam ter esse cuidado, respeitar as ferramentas e técnicas de gestão de pessoas. Idalberto Chiavenato, escritor brasileiro, costuma dizer que a empresa é um espaço sociotécnico, porque tem pessoas, tem equipamentos, tecnologia e precisa fazer um casamento, ou seja, alinhar função e perfil. Precisamos olhar o que está por trás do sofrimento psíquico no trabalho e, muitas vezes, as empresas pecam. As empresas têm três pilares que a sustentam: financeiro, tecnológico e capital humano. Geralmente os empresários focam nos dois primeiros e esquecem o capital humano.

O estresse é a porta de entrada para sindrome de bournout?

A síndrome de bournout é o esgotamento emocional relacionado ao trabalho, o estresse crônico. É específica do trabalho. É aquela pessoa que quando levanta de manhã não tem força emocional, ânimo e vai arrastada para o trabalho. Essa pessoa precisa ser tratada, buscar ajuda profissional, psicoterapia, psiquiatria, porque não vai conseguir sair da síndrome sozinha.

"Muitas vezes, o único recurso que a pessoa tem é a fé e não temos o direito de arrancar isso dela"

O que leva a essa síndrome?

A minha dissertação concluiu que o adoecimento do trabalhador reside sobretudo na insatisfação. Quando se perde o sentido do trabalho, quando não se tem mais motivação pelo que faz, quando não se está feliz, é hora de repensar a vida profissional. Então, o adoecimento do trabalho envolve um arsenal de questões que precisam ser avaliadas, que incluem o modelo de gestão e de liderança da empresa. As empresas devem priorizar o seu capital humano, porque é ele quem fará funcionar a engrenagem. Por isso precisamos cuidar das pessoas. O estresse no trabalho é o que excede à capacidade de o profissional resolver. Os sinais do estresse são irritação, mau humor, isolamento e busca compensação no álcool com reflexos na família.

Como resolver?

Na questão das empresas, é ter uma gestão de pessoas eficiente, justa. No caso das pessoas, se cuidar emocionalmente. As pessoas se fecham no seu mundo, não conversam, não se olham. É uma competitividade que está levando ao caos. Precisamos nos cuidar, ter uma atividade física para disparar as sensações de prazer, de relaxamento e satisfação. Nas represas das fazendas, não tem um ladrão para dar vazão ao excesso de água, para evitar o estouro da represa? Assim é também com o ser humano, que precisa encontrar seus “ladrões”, suas válvulas de escape. O ser humano não é máquina que liga e desliga um botão. Então, empresas, olhem, para o capital humano de forma humanizada, com empatia, para que todos se adaptem às normas de trabalho.

Fale sobre religião e saúde?

Não tem como olhar para o ser humano apenas como ser biológico. Inclusive na faculdade participo de uma disciplina que é a subjetividade no cuidar da saúde. A psicologia e medicina trabalham com evidências, porém, a religião, a fé, a crença e a espiritualidade são aliadas. Muitas vezes, o único recurso que a pessoa tem é a fé e não temos o direito de arrancar isso dela.

 

 

 

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