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“Escolhi reabilitar vidas”



“Escolhi reabilitar vidas”

Há quinze dias começou a funcionar em Fernandópolis o projeto de acompanhamento de pacientes pós covid. A iniciativa da fisioterapeuta Érica Tazinaffo e do educador físico Jeferson Falchi foi encampado pela prefeitura através das secretarias de Esportes e Saúde e já beneficia mais de 50 pessoas que, após triagem, iniciaram o processo de reabilitação das sequelas pós covid.  Érica, que é fisioterapeuta há 20 anos, recebeu CIDADÃO e se emocionou em falar da oportunidade de poder ajudar. “Eu escolhi reabilitar pessoas. Então me sinto feliz e emotiva em poder ajudar e ver que as pessoas ficam com gratidão diante do nosso trabalho, meu e do Jeferson, que é voluntário”, diz. Ela afirma que o cenário é preocupante. “Muitos pacientes não sabiam que estavam com a sequela de pós covid. A maioria são de casos do ano passado, gente que teve covid em 2020, por volta de março, abril, maio”, diz. A faixa etária que mais tem procurado a reabilitação é de pessoas entre 25 e 50 anos. O projeto realiza triagem toda segunda-feira e as pessoas são divididas em grupos para o atendimento. “É um projeto que não tem data para acabar”, diz. Leia a entrevista:

Como surgiu a ideia de propor um trabalho de reabilitação pós covid?
Esse projeto teve início no final de fevereiro. O Jeferson Falchi (educador físico), que trabalha comigo, teve a ideia e a gente colocou no papel e deu andamento. O projeto começou através de grupos de WatsApp. Vimos que tinha muitas pessoas com dúvidas a respeito de tratamento, de sequelas, inclusive pessoas conhecidas que estavam com este tipo de sequelas pós covid. Montamos um grupo no watts para passar informações e dicas de exercícios orientados com vídeos e que poderiam ser feitos no domicílio. Um grupo encheu, abrimos outro, encheu também. Decidimos então migrar todos para o Telegran, aplicativo que pode receber mais de 2,5 mil pessoas. E com ajuda de outros profissionais, médicos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, começamos a dar orientações a essas pessoas, porque as vezes tinha alguma pergunta que não cabia a nossa profissão. Então a gente procurava um amigo e pedia ajuda e passava para o pessoal. Percebemos que esse grupo foi ganhando uma dimensão muito grande, chegou a outros estados, muita gente de Mato Grosso, Rio de Janeiro, Ceará. Decidimos avançar com o projeto para o presencial. Foi então que, em parceria com as secretarias de Esportes e de Saúde da Prefeitura, deu certo e estamos executando esse projeto.

"A maioria dos que chegam ao projeto são de casos do ano passado, gente que teve covid em 2020"

Vocês estavam no ambiente virtual e iniciaram no atendimento presencial. Como é agora estar diante de um paciente que não tinha chegado até vocês?
Eu já estava atendendo pacientes na clínica (Bem Estar) com sequelas de pós covid. Porém, não sabia que tinham tantas pessoas com sequelas. Quando você atende online é diferente, não tem o contato com a pessoa, de ver, conversar, sentir o que ela está passando. No presencial a gente percebeu que as pessoas estão passando por muitas dificuldades, principalmente por crises de ansiedade e estresse devido às sequelas. Percebemos que essas pessoas querem ser acolhidas, querem conversar e, de fato, ver como estão essas sequelas.

Esse paciente que está chegando ao projeto estava sem assistência?
Exatamente. A rede de postinhos ficou sobrecarregada com a demanda para o atendimento de Covid e agora que está começando a voltar ao normal. Só que a demanda é muito grande, não dá para atender a todos. Muitos pacientes não sabiam que estavam com a sequela de pós covid. A maioria são de casos do ano passado, gente que teve covid em 2020, por volta de março, abril, maio. Teve paciente que nem chegou a ficar internado, casos de pacientes assintomáticos e agora estão com sequelas, muita dor de cabeça, formigamento, dores nas pernas, fraqueza, fadiga, falta de ar. Através da comunicação pela imprensa, rádios, jornais e redes sociais, começamos a divulgar e explicar o que poderia ser a sequela do pós covid. Quem está procurando, passa por uma triagem na segunda-feira, bem minuciosa, verificando se esse paciente está apto para ficar ali na Secretaria de Esportes para fazer a reabilitação com a gente, que são os casos mais leves e moderados, ou se precisa ser encaminhado para o Cadip, que são os mais graves. Mas, as pessoas ainda estão muito desinformadas, não sabem de fato quais são as sequelas.

"A Covid não está somente atrapalhando a parte motora e respiratória das pessoas, mas também o emocional"

Os pacientes que estão chegando até o projeto, em qual grupo se enquadra?
Os maiores grupos são de pacientes leves e moderados, que são as pessoas com falta de ar, fadiga leve, só que quando vai executar alguma atividade de rotina, como lavar uma louça ou voltar ao trabalho, sente muita canseira, dores pelo corpo. As atividades que estamos proporcionando faz com que a pessoa recupere sua capacidade respiratória e motora, os movimentos melhoram e a força muscular volta a ser como antes.

Vocês trabalham com os pacientes a reabilitação respiratória e motora?
Isso. Tem a fisioterapia respiratória que eu trabalho com os pacientes e a reabilitação motora que, no caso, é o educador físico Jeferson Falchi. Primeiro buscamos fazer a pessoa entender como funciona o organismo dela, para voltar a respirar melhor. Na verdade, o pulmão não consegue expandir, machucou e ali ficou uma fibrose, o pulmão não expande direito e com isso a pessoa não respira bem. Isso traz um estresse e ansiedade que ajuda a piorar o quadro respiratório. Primeiro fazemos a reeducação respiratória e depois vamos fortalecer o pulmão com exercícios. Na parte motora, também é assim, reeduca esse organismo, os músculos e depois trabalha força, resistência, equilíbrio e, até as vezes, um treino de marcha, porque o indivíduo ficou com tantas sequelas, ainda que mínimas, só que estão prejudicando no seu dia a dia.

Vocês estimam em quanto tempo de trabalho para a pessoa ser liberada do projeto?
Cada pessoa reage de um jeito, cada pessoa tem uma sequela. Uma dor na perna de uma pessoa não é igual a dor que a outra pessoa também sente na perna. Então, em cima de estudos, de capacitação que fizemos e pela experiência que adquirimos desde o ano passado nas reabilitações, é no mínimo seis meses de tratamento para essa pessoa começar a ter uma qualidade de vida melhor.

Esse quadro pós covid preocupa?
Sem dúvida, é uma quantidade enorme de pessoas com essas sequelas e muitas nem sabem, porque muitas vezes essa comunicação não chega a elas ou então não acreditam que as dores nas pernas, na cabeça, a queda de cabelo, falta de ar é da Covid. Alguns nem sabem que pegaram covid, foram assintomáticos, e agora sentem as sequelas.

"A nossa meta, minha e do Jeferson, é reabilitar muitas pessoas. É um projeto que não tem data para acabar"

Como avalia esse cenário?
Daqui para frente é muita reabilitação, tanto motora, respiratória e psicológica. A Covid não está somente atrapalhando a parte motora e respiratória das pessoas. Tem muitas pessoas sofrendo com crises de ansiedade, não conseguem dormir, passam noites em claro. Tem paciente que chega no projeto e diz que não consegue dormir nem com remédio. A pandemia afetou emocionalmente essas pessoas. Além delas estarem com essas sequelas, também perderam a vontade de ter uma vida social porque têm medo de sair, muitas perderam o emprego porque enfrentaram no pós covid com muito tempo de afastamento e quando retornaram, as condições físicas atrapalharam suas atividades. É um cenário muito triste que temos pela frente, porque tem uma nova variante que está vindo aí (a Delta) e não sabemos o que vai acontecer, é tudo muito novo. Essas sequelas estão ainda em estudo, não sabemos se elas vão cessar, se as pessoas que tomaram vacina e pegaram a covid, as sequelas serão menores. Então o profissional que trabalha com reabilitação não pode parar de estudar, porque cada dia tem algo novo para aprender para ajudar essas pessoas.
Qual o perfil dos que buscam a reabilitação?
A maior quantidade de pessoas está no grupo 25 a 50 anos, mas temos pacientes de 60, 70 anos, com quadros piores porque elas já vêm com uma comorbidades acompanhada (pressão alta, diabetes, cardiopatia). Tudo isso faz o quadro piorar com as sequelas pós covid.

Como se sente poder ajudar essas pessoas?
Posso dizer que fico até emocionada. É muito importante poder ajudar as pessoas. É um trabalho voluntário, meu e do Jeferson, em parceria com prefeitura de Fernandópolis e secretarias de Saúde e Esportes. Escolhi reabilitar vidas. Então me sinto feliz e emotiva em poder ajudar e ver que as pessoas ficam com gratidão diante do nosso trabalho. Poder ajudar a recuperar vidas, fazer as pessoas voltarem a ter uma vida digna, porque isso mexe também com a parte financeira delas. Essa parceria é uma chance de devolver a qualidade de vida a essas pessoas. Por isso quero agradecer ao prefeito André Pessuto que abriu as portas para a gente realizar esse projeto, aos secretários da Saúde, Ivan Veronesi, e do Esporte, Humberto Cáfaro que acolheram a ideia com o propósito de ajudar a população fernandopolense. A nossa meta, minha e do Jeferson, é reabilitar muitas pessoas. É um projeto que não tem data para acabar. Se depender da gente, vamos reabilitar muitas vidas.

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