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Fernandópolis pelo olhar de Dona Ely Jacob



Fernandópolis pelo olhar de Dona Ely Jacob

Fernandópolis está comemorando 83 anos de fundação. Do alto dos 90 anos, cheia de vitalidade, dona Ely Martins Jacob, esposa do saudoso advogado Dr. Fernando Jacob, viu a cidade crescer enquanto criava os seis filhos na casa na Avenida Expedicionários Brasileiros, esquina com a Rua Rio de Janeiro, onde viveu desde quando chegou aqui em 1954 até 1990. Era uma casa no meio do mato quando chegaram aqui. Na frente da casa, uma avenida larga de terra batida (hoje Avenida Expedicionários Brasileiros) onde descia até avião, conta Dona Ely. A luz gerada por motor acendia às 6 da tarde e apagava às 10 da noite. Todos os seis filhos nasceram em Fernandópolis. Desses apenas os caçulas Eliana e Renato, nasceram no Hospital das Clínicas. Os outros nasceram em casa, um deles ela fez o parto sozinha, enquanto Dr. Fernando saiu para buscar o médico. Histórias que marcaram os 68 anos da família Jacob desde que chegou em Fernandópolis. Hoje mora no Edifício 22 de Maio, a duas quadras da Praça Dr. Fernando Jacob, homenagem ao marido, inaugurada em 2010. “Foi uma homenagem muito bonita. A família ficou muito contente com o reconhecimento do seu trabalho”, disse dona Ely. A entrevista, a seguir, é uma viagem aos primórdios da cidade, uma vila quando dona Ely aqui chegou logo após o casamento com o Dr. Fernando em Votuporanga. Leia:

Quando Fernandópolis entrou na sua vida?
Foi logo depois que me casei, em 1954. Eu nasci em Mirassol. Já tinha perdido o meu pai e aos 14 anos também perdi minha mãe vim para Votuporanga morar com os tios e primos. 

A senhora conheceu o Dr. Fernando Jacob em Votuporanga?
Sim. Foi em um baile. Casamos em Votuporanga no dia 10 de maio de 1953, casamento que foi celebrado pelo padre Canísio que já estava em Fernandópolis e foi lá em Votuporanga. Vim morar em Fernandópolis e aqui tive meus seis filhos Fernando Filho, Luiz Eduardo, Murilo, Carlos Henrique Eliana e Renato. (Murilo e Carlos Henrique já são falecidos).

"Era uma avenida muito larga (hoje Expedicionários) e até avião descia ali naquela época"

Quando chegou aqui em Fernandópolis, como era a cidade?
Nossa Senhora, era terrível. Na esquina onde fui morar (Rua Rio de Janeiro com a Expedicionários Brasileiros) era uma avenida muito larga, era só mato, não tinha casa por perto. Até avião descia ali na avenida naquela época. Eu ficava muito brava porque às vezes tinha roupa no varal, levantava aquela poeira e tinha que lavar tudo de novo. A cidade ainda era uma vila, a luz, que era gerada por motor, chegava às 6 horas da tarde e às 10 apagava e aí tinha que usar lampião. O prefeito era Líbero de Almeida Silvares.

Essa casa da Rua Rio de Janeiro foi onde a senhora sempre morou?
Sim, moramos ali até meu marido morrer (em 1990). Era uma casa de alvenaria e depois ela foi reformada para aumentar um pouco por causa dos filhos. Tinha aquele alpendre na frente. Era uma das poucas casas ali. 

"A cidade cresceu. Eu fico muito brava quando falam mal de Fernandópolis"

A senhora cuidava dos filhos e da casa?
Era muito trabalho para cuidar da casa e dos filhos. A gente encerava o chão, derretendo cera com vermelhão e depois dava o brilho com o escovão. Era um trabalho pesado. Me lembro que estava grávida de um dos filhos e cismei de encerar a casa, aí não conseguia passar o escovão. Sentei e chorei. Uma amiga chegou e falou, ‘onde se viu fazer uma coisa dessa?’. E ela, então, passou o escovão na casa toda. Era uma vida difícil, acender lampião era um tormento, tinha dia que não pegava. 

Tem a história de um parto, como foi?
Foi o parto do terceiro filho. Meu marido já deitado à noite, eu falava para ele que não estava bem. Quase de manhã eu falei, acho que vai nascer. Aí ele correu para buscar o médico, mas nesse tempo que ele saiu eu tive o nenê sozinha. Minha sogra chegou e me ajudou, ligou para o Dr. Alberto Senra que a criança tinha nascido. Ele veio correndo de pijama, a dona Leila atrás dele. Ele ficou bravo comigo, ‘parece uma cabocla, onde se viu fazer isso’. Quando o Dr. Waltrudes Baraldi chegou com meu marido, já estava tudo arrumadinho. Tive que me virar, quando vi que a criança ia nascer. Nos outros, fiquei esperta e já chamava o médico logo. Quem nasceu em hospital foram a Eliana e o Renato, o caçula. Já tinha o Hospital das Clínicas, era só atravessar a rua. O primeiro parto, do Fernando, foi em casa feito pelo Dr. Alberto Senra e a dona Leila, com lampião. Estava me tratando com médico em Rio Preto e ia nascer lá, mas deixei para viajar no dia que estava marcado para nascer. Naquela época levava horas para chegar em Rio Preto, a estrada era de terra. Quando apertou, veio o Dr. Alberto de noite para fazer o parto. Graças a Deus foi tudo bem. 

Dr. Fernando Jacob foi um advogado renomado e gostava de política?
Ele gostava de política e era um advogado que fazia muita caridade, não cobrava. A gente não ficou rico, mas foi suficiente para criar bem os filhos, Graças a Deus. 

"Desejo sempre um bom governo para a cidade crescer cada vez mais"

Ele foi vereador por dois mandatos e chegou a ser candidato a prefeito. A senhora nunca quis participar de política?
Não, com seis filhos pequenos não sobrava tempo. De vez em quando saia com algumas amigas para fazer campanha, mas achava horrível, não tinha jeito para isso. Preferia cuidar dos filhos.

Na época de campanha, a senhora dava palpite?
Eu ficava recebendo o povo da vila lá em casa. A gente recebia também políticos. O governador Adhemar de Barros esteve em casa. Muitos políticos frequentavam nossa casa. 

Ser esposa de político, dizem, é trabalhoso?
Muito. Minha casa, Graças a Deus, sempre estava cheia de amigos do meu marido, dos meus filhos. Vivia com a casa cheia de gente. Gostava de receber esse pessoal.

O Dr. Fernando era conhecido como advogado dos pobres. Era a fama dele?
Ele não cobrava. A pessoa procurava e não tinha como pagar, ele fazia o serviço da mesma forma. Os pobres, na época que ele precisou, não deram o voto. Mas, foi bom, porque ele fez o que tinha vontade de fazer. E fez isso até morrer em 1990. Ele tinha 69 anos e estava fazendo um júri Minas Gerais e sofreu o infarto. E ele não queria fazer esse júri, porque eram duas pessoas que conhecia, advogado que matou um cartorário. Durante o júri ele sentiu-se mal, veio para casa e no dia seguinte foi para o hospital em Rio Preto, mas não teve jeito. 

A senhora criou raiz em Fernandópolis?
Foi aqui que criei os meus filhos, conheci muita gente boa, muitos amigos e amigas. Por enquanto me viro bem, com a rotina da casa, ainda saio para fazer compras, almoçar no Paladar com minha filha. Tenho faxineira uma vez por semana e vou cuidando da casa com a ajuda da minha filha (Eliana). Quando preciso sair, chamo o motorista, o Baiano do táxi, que conheço há muitos anos e ele me leva onde preciso ir e faço o que tenho que fazer. Não quero dar trabalho.

Como vê Fernandópolis hoje?
A cidade cresceu. Eu fico muito brava quando falam mal de Fernandópolis. Na televisão a cidade só aparece quando é coisa ruim. Eu não gosto disso. Eu gosto muito da cidade, é onde me sinto bem. Meus filhos nasceram e foram criados aqui. A minha história está aqui em Fernandópolis.  

A senhora faz questão de votar, ou já parou?
Parei. Não estou gostando de ver o que acontece na política. Está difícil escolher político. Por isso resolvi não me envolver mais. Chega, já fiz a minha parte.

Se pudesse dar um presente para a cidade, o que escolheria?
Sempre um bom governo para a cidade crescer cada vez mais. Mas, a política ainda atrapalha, sempre atrapalhou, sempre teve muita briga. Na Câmara de Vereadores era uma coisa de doido antigamente. O Fernando não era um político de brigar, mas ele respondia o que falavam. Depois, ele perdoava tudo, não guardava mágoa de ninguém. A gente se dava bem com todos. Ele esquecia o que falavam dele. Chegaram a falar que era comunista, mas não era comunista, não. A história veio do tempo que ele fazia faculdade de Direito em São Paulo (Largo São Francisco) que fazia movimento contra o governo e veio essa fama, mas não tinha nada de comunismo não. Quando pega a fama, não adianta, né.

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